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Terça-Feira, 23 de Abril de 2024




Entrevista da Semana

Para José Zeferino Pedrozo, o agronegócio é resiliente, mas o cenário continua desafiador

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Presidente da Faesc analisa cenário do agronegócio, após um ano marcado por revezes

Para José Zeferino Pedrozo, o agronegócio é resiliente, mas o cenário continua desafiador
Foto:
- José Zeferino Pedrozo, presidente do sistema Faesc/Senac-SC

Nascido em Campos Novos em 15 de abril de 1941, José Zeferino Pedrozo é uma liderança empresarial com extensa experiência na área. Além de ocupar o cargo de presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc) desde 1990, ele também desempenha papéis de destaque como presidente do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR/SC), vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e vice-presidente do Conselho Deliberativo Nacional do SEBRAE.

Em meio a um cenário desafiador para o agronegócio, marcado por reveses significativos, José Zeferino Pedrozo destaca, em entrevista exclusiva à Rede Catarinense de Notícias, a complexidade enfrentada pelo setor, especialmente na região sul do país.

RCN: Presidente, recentemente a Frente Parlamentar do Agronegócio emitiu uma nota chamando a atenção para o discurso do presidente Lula na COP28, que comparou o Congresso Nacional à raposa cuidando do galinheiro, ao se referir ao marco temporal das terras indígenas.  Qual é o posicionamento da FAESC em relação a esse pronunciamento e também a essa nota emitida pela Frente Parlamentar?

Pedrozo: Bom, nós somos vinculados à Confederação Nacional da Agricultura, que é nosso órgão de cúpula. Esses assuntos nacionais, geralmente, a resposta vem através da manifestação do presidente de todo o sistema do agro brasileiro, que é o João Martins, que preside a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil.  Agora, lógico que chamou a atenção, deixou, principalmente nós que trabalhamos no agro, preocupados, embora nós já tenhamos conhecimento de como o presidente da República olha a nossa atividade. A gente sente, porque é o mandatário da nação, que assim se manifesta, no estrangeiro, em países que têm relações comerciais com  o Brasil e, geralmente, são consumidores dos nossos produtos do agronegócio.  Eu acho que foi infeliz essa manifestação, mas a resposta definitiva, certamente, a confederação, se já não deu, vai dar. E também a nossa representação da Frente Parlamentar da Agricultura já se manifestou, demonstrando também a sua divergência com essa fala do nosso presidente da República.

RCN: O setor do agronegócio tem uma forte expectativa em relação ao veto do marco temporal e também em relação ao STF considerar esse projeto de lei inconstitucional.  Qual é o posicionamento da Faesc?

Pedrozo: Nós, lógico, só podemos ser favoráveis, estamos confiantes na derrubada do veto do presidente da República e vai chegar uma hora que a verdade tem que aparecer.  É artigo constitucional o direito de propriedade, nós sentimos que essas situações tenham sido, depois de já confirmadas num passado não muito remoto, e agora vem o nosso Supremo, que é o responsável pela Justiça Nacional, deixar em dúvida e colocar as propriedades rurais numa situação constrangedora e de incerteza sobre o seu futuro.  Mas, nós confiamos naqueles que fazem as leis brasileiras e esperamos que essas leis sejam cumpridas, dando exemplo a maior corte de Justiça Nacional.

RCN: Presidente, o agronegócio tem um papel fundamental no PIB.  O primeiro semestre foi avaliado positivamente e o segundo semestre tem uma expectativa de retração.  É sazonal ou tem outros fatores ligados?

Pedrozo: Nós estamos vivendo um ano muito atípico, só no sul do país são vinte e tantos bilhões de prejuízos no agronegócio, Rio Grande, Santa Catarina e Paraná. Mas, mesmo assim, nós confiamos que nós tenhamos ainda um saldo favorável, superior a setenta bilhões, que é a expectativa que o agronegócio tem até o final do ano, que já estamos na contagem regressiva.  Então, fatores adversos, como as intempéries, fatores climáticos,  têm atingido toda a região sul, que tem sofrido esse revés de chuvas, além da média, em grande quantidade.  E o Norte também sofreu pelo inverso do que nós estamos passando aqui no Sul, com a estiagem que atrasou os plantios.  Mas, nós confiamos na tecnologia que hoje é aplicada no agronegócio, principalmente na área da lavoura, e nós contamos para o ano que vem, apesar de todas as adversidades, que nós tenhamos ainda um ano com saldo positivo.

RCN: Presidente, vamos fazer um balanço de 2023.  É claro que o senhor já iniciou agora nessa sua última fala, mas, um balanço mais específico, tanto para o setor, quanto para os trabalhos realizados pela FAESC?

Pedrozo: Bom, no nosso setor é um ano que nós não temos muito a comemorar, efetivamente, principalmente nós aqui do sul do país.  As nossas atividades sofreram grandes reveses aí.  Primeiro, o setor de leite, que Santa Catarina é o quarto maior produtor de leite do Brasil,  e assim mesmo se ressentiu diante da falta de uma política de importação e exportação,  e que contemplou os produtores dos nossos vizinhos, Argentina, Uruguai, com uma grande  quantidade de importação, que a lei da oferta e da procura, ela permanece soberana,  ninguém revoga.  Como aumentou muito a disponibilidade de leite, os preços se achataram e o produtor de leite do Brasil, não só aqui do Sul, está sentindo um ano completamente atípico, sem margem de lucro. E nós torcemos para que eles não desanimem, porque esperamos que isso, no curto espaço de tempo, também passe e eles voltem a ter lucratividade nessa atividade.

RCN: E como se comportou a área de grãos e a pecuária?
Pedrozo: Nos grãos também houve uma retração, embora tenha reduzido também o custo de produção.  A pecuária de corte segue na mesma linha, com prejuízos substanciais nessa atividade.  Eu mesmo sou um modesto produtor de terneiros, gado de cria, de corte; enquanto no ano de 2021 eu vendia a R$ 15,00 o quilo na minha produção, no ano passado eu vendia a R$ 12,00 e esse ano eu tenho acompanhado a comercialização e está abaixo dessa média.  Então, você veja que tem sido um ano difícil.  A mesma coisa, o gado gordo, houve uma quebra substancial nos preços e na remuneração.  É um ano complicado, mas nós estamos acostumados.  O agro não esmorece, o agro hoje está consolidado a nível de Brasil.  No final do século passado, em 1983, eu sou testemunha, porque importava, como presidente de uma cooperativa, milho, arroz, feijão e nesse curto espaço de tempo nós demos a virada e hoje somos os maiores exportadores de milho, grande exportador dos demais cereais.  E hoje, no Brasil, o agronegócio faz parte com muita firmeza na consolidação da economia nacional, produzindo alimento para o consumo interno para nós brasileiros e com excesso considerável para o mercado internacional, fornecendo alimento para muitos países que são fregueses de nossos produtos.

RCN: Em relação ao 2024, quais são as expectativas, tanto em safra quanto a linha de crédito no agronegócio?

Pedrozo:  Na linha de crédito nós estamos com sérias precauções em relação aos recursos a partir do seguro agrícola, que é tão necessário; mas tem dado tanta catástrofe que até as seguradoras certamente estão hoje com dificuldades.  Nós estamos numa encruzilhada e esperamos que nós possamos ter em 2024 um ano com produção, se não farta, mas que traga novamente condições de ganho para a nossa atividade.

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