memória e verdade

UFSC teve participação ativa em ações da ditadura civil-militar

16 Maio 2018 14:05:00

Comissão investigou atos de repressão promovidos pela Universidade entre 1964 e 1985

Durante a Ditadura Civil-Militar havia uma conexão entre os setores militar e policial e a administração da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A Universidade teve uma participação ativa ou foi omissa no processo de repressão e perseguição a professores, estudantes e técnicos administrativos. Ficou comprovado que o papel de espionagem, denúncia, censura, repressão e controle ideológico foi assumido em determinados períodos pela administração da instituição, através de seus membros, ou do próprio reitor. O documento tem 818 páginas e está disponível para consulta.

Essas são algumas das informações que constam no Relatório Final da Comissão Memória e Verdade da UFSC (CMV-UFSC), apresentado em evento na noite de segunda-feira, 14 de maio, no auditório da Reitoria. Além de trazer à tona todos esses dados, o relatório também faz recomendações à Universidade. 

Jean-Marie Farines, coordenador da Comissão, iniciou a apresentação do relatório afirmando que há uma ideia equivocada de que os efeitos da ditadura militar não foram tão significativos no âmbito da Universidade: "A história que permanece na UFSC é a de que aqui não houve fatos marcantes de repressão, que reinava a paz e a cordialidade entre administração, professores e estudantes. E que graças a esse quase consenso, e pelo protagonismo de seu reitor e de sua administração, a UFSC foi pioneira da Reforma Universitária.


Ficou comprovado que o papel de espionagem, denúncia, censura, repressão e controle ideológico foi assumido em determinados
períodos pela administração da instituição. Foto:  Henrique Almeida/UFSC

Um dos objetivos principais da Comissão foi buscar nas fontes primárias e nos depoimentos fatos que validassem ou não a narrativa construída até o momento na UFSC. Esses documentos forneceram subsídios para reescrever a história e para trazer a verdade para a memória da comunidade universitária. Não podemos nos restringir unicamente pela visão oferecida por um mito que foi construído."

Muitas universidade do país, conforme lembrou Jean-Marie, tiveram uma atitude de resistência à ditadura, como foi o caso da UFMG. Na UFSC, pelo contrário, já em 2 de maio de 1964, logo após o golpe, uma portaria do reitor designou uma comissão de inquérito que buscava atender ao Ato Institucional 1. "Durante 45 dias essa comissão promoveu uma extensa varredura de informações sobre professores, estudantes e funcionários da Universidade, à caça de elementos considerados subversivos. Seu trabalho se desenvolveu na mais estreita relação com setores militares estabelecidos na capital", afirmou Jean-Marie. Um dos alvos preferenciais foi o professor de Direito Henrique Stodieck.

O relatório faz duras críticas a João David Ferreira Lima, primeiro reitor da UFSC: "O reitor Ferreira Lima se mostrou um fiel cumpridor das ordens militares, um leal seguidor e defensor do Golpe, permanecendo aquém da relevância e da dignidade de seu cargo, como dirigente máximo de uma Universidade." O relatório afirma ainda que Ferreira Lima "mostrou-se circunscrito a seu papel de gerenciador e fortalecedor das demandas da ditadura, o que fez com pertinácia e envaidecimento. Estudantes, como Francisco Mastella, serão abandonados à sanha das forças da repressão. A temporada da caça às bruxas será aberta, contando não só com a cumplicidade, mas também com a contribuição direta e decisiva da própria reitoria". No texto há uma declaração do professor Armen Mamigonian, referindo-se ao surgimento da "direita raivosa" dentro da Universidade: "Houve uma espécie de guinada lenta, gradual. O pessoal foi vendo que quem mandava não eram mais os velhos professores, como Stodieck. Percebeu que quem mandava era a reitoria, o próprio Ferreira Lima. Todos foram para a direita com a maior tranquilidade do mundo. Um pessoal que balança conforme a direção dos ventos."


Relatório foi entregue nesta segunda-feira (14) em evento na Universidade. Foto: Henrique Almeida/UFSC

Segundo Jean-Marie, a repressão ocorreu desde o início, tanto partindo de fora como de dentro da própria instituição. Em 1965, por exemplo, o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) interviu diretamente na eleição para nova diretoria do Centro Acadêmico XI de Fevereiro (CAXIF), do curso de Direito. Uma tropa de choque entrou na Universidade e recolheu as urnas. O estudante Ivo Eckert, que era candidato, respondeu a Inquérito Policial Militar junto ao 14º Batalhão de Caçadores, como resultado de seu indiciamento pela Comissão de Inquérito da UFSC.

Segundo o relatório, a Comissão "não encontrou, nos documentos oficiais que consultou nos arquivos da UFSC ou nos depoimentos colhidos, informações claras e precisas de expulsões de estudantes e de expurgos de servidores e professores da UFSC, a partir da utilização direta do decreto 477, após o AI-5. Entretanto, diversos testemunhos denunciam que muitas não contratações de docentes ocorreram nesse período, além da pressão que esse instrumento e sua possível aplicação exercia sobre eventuais 'veleidades' do movimento estudantil." Ronaldo Andrade, que foi presidente do Diretório Acadêmico do Centro de Estudos Básicos (DACEB) de 1973 a 1974, declarou em seu depoimento à Comissão: "Era um clima de medo? nós não tínhamos greve, isso não existia."







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