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PSL hoje tem outro perfil, diz Carlos Moisés

Presidente de honra do partido, governador trabalha para eleições municipais: 'Temos uma lista de prefeitos que passarão para o PSL para concorrer à reeleição', disse

Foto: Peterson Paul

Em entrevista exclusiva à ADI/SC e à Adjori/SC, o governador Carlos Moisés da Silva fez um balanço do ano de 2019, seu primeiro dos quatro do mandato. Apesar de passados apenas 12 meses, muita coisa mudou. A alcunha de "comandante" ficou nas urnas e, na prática, o pesselista manteve distância do bolsonarismo. 

Além disso, a base política ficou longe daquilo que se imaginava. Criticado pela falta de diálogo, rachou com os deputados do partido, fez acenos à chamada velha política, apertou o cinto dos gastos públicos e disse que a imprensa não foi 100% justa com ele. 

 


ADI/Adjori - Como está o fechamento do ano?

Carlos Moisés da Silva - Graças a Deus conseguimos fechar o ano honrando a folha de pagamento e diminuindo gastos. Diminuímos cargos comissionados, eram 1.370 em 2013, chegamos a 577 em 2019. Em saúde, pagamos R$ 750 milhões. Aumentou a arrecadação, mas tem os restos a pagar deixados pelo outro governo. E tem que honrar a folha, pagar financiamento indexado em dólar. É um esforço sobrenatural. 

ADI/Adjori - É uma boa forma de fechar o primeiro ano de um governante que não tem bagagem política anterior?

Moisés - É, porque veja, se eu tivesse a bagagem política, teria muita dificuldade de fechar as ADRs, por exemplo. E nisso a Assembleia ajudou. Tivemos apoio total. Era proposta do governo reduzir cargos. Isso talvez tenha sido a sobrevivência do estado. Pelo menos 15 estados ameaçavam não pagar o 13º este ano, seis atrasaram folha de pagamento, e alguns não tinham pagado o 13º de 2018. É uma situação bem complexa para se recuperar. O que fazemos aqui é tentar conseguir fechar um ano equilibrado, com a expectativa de zerar despesas e no ano que vem continuar fomentando o aumento de arrecadação, até que a gente zere o déficit público. O déficit projetado em janeiro era de R$ 2,5 bilhões. Reduzimos o déficit para R$ 1,2 bilhão. E ano que vem quero zerar. Aí teremos que ter novas formas de aumentar nossa arrecadação. Uma delas é o combate à sonegação. E existem muitas formas de sonegação. Não há por que o empresário formal se chatear. Só em cigarros contrabandeados no Brasil são mais de R$ 165 milhões por ano. Este é um item só. É óbvio que esse assunto é controverso porque as pessoas não querem admitir que existe a inconformidade fiscal, mas ela existe. Queremos o esforço privado para melhorar a vida do cidadão. Como fazemos hoje, quando a empresa quer ganhar o tratamento tributário diferenciado? Propomos que, ou ampliem a planta, ou aumentem o número de empregados. Damos o incentivo e a empresa vai comprovando que está investindo. A Fazenda acompanha. O governo não gera emprego, quem gera é o empresário. Mas se o governo não souber trabalhar com o empresário, os movimentos do estado vão só sacrificar o cidadão comum.

ADI/Adjori - Mesmo com dificuldades, o senhor considera que foi um primeiro ano exitoso? O que ficou para trás?

Moisés - Foram vários os avanços, em várias áreas. Revisamos contratos que trouxeram economia para o estado. Passamos a comprar melhor. A boa notícia é que isso está só no começo. Uma coisa que frustrou: queríamos fazer o levantamento dos imóveis do estado, mas vimos que o poço é mais fundo do que imaginávamos. Temos cerca de R$ 7 bilhões em imóveis em Santa Catarina. Todos eles, todos, sem exceção, têm um problema. Ou não tem escritura, quando tem escritura, não está averbado. Encontramos um total descontrole no patrimônio de Santa Catarina. Este ano, só organizamos. E a gente suspeita que, desse patrimônio visível, temos mais uns R$ 7 bilhões ocultos. Ocultos que a gente vai ter que encontrar. Estamos nos organizando para, no ano que vem, georreferenciar esses imóveis, medi-los, atribuir um valor de mercado a eles. Temos um tesouro escondido e precisamos saber onde está e desenterrá-lo. Vamos alienar ou destinar adequadamente, em benefício dos catarinenses. O descontrole é tão grande que num primeiro momento achamos que até julho resolveríamos essa questão. Acredito que ano que vem a gente avance nisso.

ADI/Adjori - Meses atrás o senhor disse que já tinha "apanhado muito". Qual sua avaliação sobre a cobertura da imprensa sobre sua gestão? O senhor acha que foi justa, adequada?

Moisés - 100% não. Em alguns casos, a imprensa fez o papel dela, com informação isenta e ouvindo os dois lados. Em alguns casos, havia veículos que estavam ávidos para receber alguma notícia e divulgá-la. É difícil trabalhar isso, porque destoa de veículo a veículo. Alguns veículos trabalham com uma realidade, e outros destoam. Acho que há uma vocação natural para criticar. Isso foi muito bem levantado há pouco tempo, conversando com os empresários, alguns me questionaram muito sobre o tipo de entrega que a gente estaria fazendo por meio da imprensa. Porque todos viram que havia notícias boas do governo e se perguntaram por que não ficaram sabendo delas. Por que se a coisa é boa não se fala a respeito? Eu respondi que se fala, mas que alguns grandes veículos, não foram todos, que poderiam ter a potência de distribuição dos conteúdos para o interior, perderam algum conteúdo. Eles disseram que era injusto, inclusive para o estado. Quando o governo tem que ser criticado, tem que ser criticado mesmo e a notícia tem que vir, de forma transparente. Mas quando tem uma coisa boa, entendemos que o jornalismo comprometido, isento, bem conduzido, vai ter que mostrar.

ADI/Adjori - A sinalização de saída do Bolsonaro e de outros políticos do PSL tem gerado paz para o partido? Ele está mais unido?

Moisés - Podemos falar em um partido com outro perfil hoje. Quem dá o tom para o partido são as pessoas que militam. Não houve ainda a saída, porque ainda não há janela para sair. As pessoas não saíram do partido. De alma, já saíram, e isso provocou um distanciamento, porque cada um tem as suas pautas, trabalham por seus interesses, pautas que lhes são caras. Por outro lado, abre espaço para que a gente trabalhe com novas pessoas que têm uma visão moderada e que também são um pouco mais flexíveis em aceitar outras pessoas no partido. Não existe nada puro, nem a água é pura. Quando o PSL rapidamente se compôs em 2018 para a eleição, veio gente que tinha militado em tudo quanto é partido. Isso é fato. Só se diziam de direita, conservadores de direita. Mas não sabíamos de onde vinham. Agora a gente tem um tempo para organizar as eleições municipais, com outras executivas.

ADI/Adjori - O senhor está participando dessa organização das eleições municipais?

Moisés - Eu ajudo, quando me resta algum tempo, à noite ou nos finais de semana, quando vou às regiões, alinho algumas conversas. Temos uma lista de prefeitos que passarão para o PSL para concorrer à reeleição. São prefeitos que não têm rejeição, que fizeram melhorar seu município, têm ficha limpa. Isso está me agradando bastante.

ADI/Adjori - Pode dizer pelo menos quantos estão nesta lista?

Moisés - Não posso falar, até porque altera todo dia. Não podemos exagerar porque nem todos os prefeitos estão prontos para a reeleição. E também porque nem todos deixarão seus partidos. Mas existem alguns que têm essa vontade e são bons nomes. Acho que o PSL acabou distensionando essa questão partidária.

ADI/Adjori - Com relação a nomes, haverá mudança de líder de governo na Assembleia?

Moisés - A liderança troca todo ano. Estamos estudando. Inclusive, como gesto, podemos trazer alguém de outro partido. É cedo para anunciar. A liderança do governo troca ano que vem. Mas certamente será alguém com boa aceitação na Assembleia, com bom trânsito entre os blocos. Com relação ao secretariado, não muda. A gente vai ajustando as coisas, vai cobrando. Recebemos agora o software que vai permitir monitorar os indicadores de avaliação do governo. E esta ferramenta é que indicará se os secretários estão indo bem ou mal.

ADI/Adjori - O senhor também terá avaliação?

Moisés - Eu não sou avaliado. Minha avaliação é nas urnas, pela sociedade.

ADI/Adjori - Isso significa reeleição?

Moisés - Não penso em eleição, em reeleição, eu penso muito em trabalhar. E eu sou muito do dia de hoje. Não sei o dia de amanhã. Tenho até um certo temor de dizer que vou fazer isso ou aquilo. Não sei onde estarei. Tenho a firme convicção de que temos que continuar fazendo o que estamos fazendo hoje no estado. Depois é consequência do momento em que se estará, dos resultados atingidos.


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