Entrevista da Semana

'Santa Catarina está ficando para trás', diz José Marciel Neis

Em entrevista, presidente da Aettusc criticou a demora do Governo do Estado para liberar as viagens interestaduais

Foto: Agência Alesc

Mesmo após 30 dias da liberação pelo governo do Estado do funcionamento do transporte urbano municipal e intermunicipal, as viagens interestaduais seguem proibidas. O setor diz que essa decisão é questionável e cobra o Governo do Estado pela igualdade de tratamento.

Em entrevista à Rede Catarinense de Notícias, o presidente da Associação das Empresas de Transporte Turístico e Fretamento de Santa Catarina (Aettusc), José Marciel Neis, comentou sobre o impacto da suspensão das viagens interestaduais, o cenário atual, e as perspectivas do setor para o futuro.


Rede Catarinense de Notícias RCN - Como a negociação com o governo avançou nesses últimos 30 dias desde a liberação do transporte urbano?

José Marciel Neis - Nos últimos 30 dias o governo começou a dialogar com o setor. Apesar da gente ter apresentado um protocolo no final de março, nós não tínhamos resposta até então. Foi a partir desse mês que ele começou a dialogar. Mostramos que mesmo com a liberação, ainda levaria um certo tempo para que as pessoas tomarem confiança para viajar, principalmente no setor do fretamento, porque as pessoas só vão voltar a viajar daqui a 2, 3 meses, certo? Mas a liberação do transporte dentro do Estado deu um folego nessas vendas, porém a gente precisa que libere o [transporte] interestadual, onde a gente tem uma demanda maior. Todos os outros estados estão liberados, só SC que não está, e a previsão de liberação ainda é para o dia 2 de agosto.


RCN - Qual a porcentagem da representação das viagens dentro e fora do Estado?

Neis - Normalmente é em torno de 40% dentro do Estado e 60% fora, mais ou menos esse volume, que conforme a época do ano varia um pouco mais pra fora.


RCN- Então nais da metade do setor continua parado?

Neis - Sim, a gente estima que cerca de 30% das empresas que pararam em março não vão ter capacidade de voltar quando liberarem o interestadual. Algumas já fecharam as portas, demitiram. Perdemos cerca de 30% das vagas que as empresas tinham, algumas suspenderam, outras demitiram.


RCN - Como o senhor avalia as medidas dos governos Federal e Estadual para amenizar os efeitos da crise?

Neis - As medidas de suspensão do contrato de trabalho, na parte trabalhista, foram alcançadas. Já as medidas como a suspensão de pagamentos de financiamentos, só com o BNDES, porque com os demais bancos a negociação é muito difícil. As linhas de crédito para capital de giro, seja federal ou estadual, nenhuma delas chegaram. Agora que estão começando a chegar em algumas empresas pelo Pronampe, mas ainda num volume muito pequeno, muito aquém da necessidade. Ou seja, ficou tudo muito no discurso. No estadual o Badesc, o BRDE, que a gente procurou aqui, nenhum deles tem recurso disponível. 


RCN - O Governo do Estado apresentou alguma projeção para a retomada das viagens interestaduais?

Neis - Tem o decreto atual, que a previsão é pra agosto. Porém, a gente não tem a certeza disso, porque o governo pode editar um novo decreto. A gente entende que a liberação do interestadual é fundamental pra retomada da confiança das pessoas que querem programar suas viagens, principalmente para o final do ano. As pessoas só vão comprar alguma coisa a partir do momento que estiver liberado. Mesmo que as pessoas não viajem em agosto, ou setembro, elas vão viajar mais pra frente, mas no momento que elas começam a comprar, começa a entrar dinheiro no caixa das empresas e as empresas conseguem manter o emprego e tocar a roda da economia. Por isso que é muito importante a confirmação da liberação, para que no máximo início de agosto, a gente possa começar a comercializar. Até porque a tendência de demanda, diminuindo a pandemia, por turismo dentro do Brasil é muito maior, porque a maioria das pessoas vão querer viajar dentro do país. Os outros estados já estão trabalhando isso e Santa Catarina está ficando para trás


RCN - Como o senhor tem visto a questão do transporte clandestino?

Neis - O governo na realidade proibiu as empresas regulares, que cumprem a legislação de rodarem, mas ele não tem estrutura para fiscalizar quem não cumpre. Então automaticamente o governo está jogando pra dentro do transporte não regulamentado toda a questão da demanda reprimida. Quando a pessoa chega num terminal turístico, seja num ônibus de fretamento ou por uma empresa de linha, você consegue mapear de onde essa pessoa veio, saber quem está chegando. Quando ela chega de carro, ela chega de vários pontos separados e você não consegue monitorar, mas as pessoas continuam viajando.


RCN - E a questão do transporte aéreo...

Neis - Uma das criticas nossas durante todo o período da pandemia, é que em momento nenhum o avião parou de rodar. E o avião não tem nenhuma limitação de número de pessoas, não tem espaçamento. Então por que que as pessoas que tem recurso, tem dinheiro, podem viajar num avião, vir para SC, e quem não tem esse recurso é obrigado a vir em aplicativos de carona, em transporte irregular, ao invés de vir em uma empresa de ônibus que cumpre todas as determinações da OMS? A gente entende que isso não segue nenhum critério técnico, mas sim critérios políticos que atrapalham o desenvolvimento e a vida do cidadão. O ônibus não é o vilão, e assim está sendo usado politicamente e prejudicando toda uma sociedade que fica sem opção.



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