entrevista da semana

'Precisamos manter as empresas vivas e as pessoas empregadas', diz Roque Pellizzaro Junior

Em entrevista, presidente do SPC Brasil comentou sobre as medidas do governo, setores mais afetados pela crise e possibilidade de retomada

A crise econômica causada pela pandemia de Coronavírus já causou o fechamento de mais de 10 mil empresas e 400 mil postos de trabalhos em SC.

Em entrevista à Rede Catarinense de Notícias, o presidente do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), Roque Pellizzaro Junior, comentou sobre as medidas adotadas pelo governo para superar a crise, os setores mais afetados e a possibilidade da retomada da economia em um futuro próximo. 


Rede Catarinense de Noticias - Qual a avaliação sobre as medidas econômicas anunciadas até agora?

Roque Pellizzaro Junior - A situação hoje não é de manter o volume que se tinha de faturamento e de rentabilidade, é uma questão de sobrevivência. No Estado, a maioria do comércio ficou fechado por 26 dias. Muitas cidades conseguiram fecharam acordos coletivos de trabalho que permitiram a concessão de férias por igual período, então não houve um prejuízo direto dos empresários porque essas férias são um passivo que eles teriam que honrar mais cedo ou mais tarde. Não obstante a isso, as medidas do governo procuraram postergar os tributos, principalmente tributos federais como o simples nacional, e o ICMS, por parte do governo estadual. Isso melhora a condição de fluxo de caixa das empresas. A retomada desse fluxo é muito importante, por isso a medida que diz respeito ao financiamento das duas próximas folhas de salários, e a postergação do pagamento do simples dos próximos 90 dias vão gerar um alivio para as empresas. Outra medida importante é a MP que permitiu a flexibilização da jornada de trabalho, com redução de salário. 


RCN - Alguns empresários têm defendido um plano de investimento para fazer a economia no pós-crise. O que o senhor acha dessa proposta?

Pellizzaro - Crescimento em 2020 eu acho que ninguém mais acredita. O grande ponto é estar focado na sobrevivência e na manutenção de emprego. Essa crise é uma crise de fluxo, tanto de bens e serviços quanto de dinheiro. O segredo é restabelecer o mais breve possível esse fluxo. Evitar demissões é o grande ponto para que o dinheiro continue circulando o mais próximo onde circulava antes. É uma situação bastante difícil, muitas empresas de vários setores já estão demitindo porque estão fazendo cortes em todas as suas despesas. Lógico, se houver a possibilidade de investimentos maciços em obras de infraestrutura sempre aquecerá a economia, da mesma forma como incentivos a construção civil, que é a maneira mais rápida de distribuir renda entre todas as cadeias produtivas.


RCN - Entre os setores que compõe o varejo, onde o impacto vai ser maior?

Pellizzaro - O setor mais impactado, sem duvida nenhuma, é o de vestuário e calçado, seguido de móveis e eletrodomésticos. Mesmo com a reabertura das lojas, a restrição ainda a prova de roupas e calçados reduz bastante o volume de vendas.

RCN - Como o senhor vê o mercado de crédito e juros daqui para frente?

Pellizzaro - É como se um bicho pulasse na frente de um carro. Antes de pensar em tudo que pode acontecer, você coloca o pé no freio para reduzir a velocidade e olhar as alternativas que se tem. Hoje, as empresas já estão vendo que algumas medidas do governo podem gerar essa retomada do fluxo financeiro. O problema é que como na saúde, empresas entraram com problemas pré-existentes à crise, porque o numero de UTIs, ou seja, o número de recursos disponíveis, não vai dar para todo mundo. Muitas empresas vinham com problemas de gestão, problemas de caixa, e essas serão mais afetadas. Mas todos os setores irão pagar um preço alto. Os funcionários já estão pagando com demissões, redução de renda, férias forçadas. Nós só ainda não conseguimos ver do setor publico quais serão as contrapartidas em redução de gastos com funcionalismo. Se haverão redução de salários, como os governos vão pagar a conta do final do mês com a queda abrupta de arrecadação. Os impactos nos cofres públicos também ocorrerão e essa posição de só transferir a conta e emitir moeda não vai fechar. Nós vamos precisar entender qual a parte que o setor público também vai fazer de sacrifício.


RCN - O SPC estima uma alta da inadimplência?

Pellizzaro - Nós podemos ter um aumento no médio prazo. A expectativa é que não haja um crescimento absurdo no inicio. Nós, os bureaus de crédito, tomamos uma iniciativa de não registrar os consumidores e as empresas. Existe uma entidade chamada ANBC, Associação Nacional dos Bureaus de Crédito. Antes, nós dávamos um prazo de renegociação de 10 dias entre chegar a informação e a gente disponibilizar isso para todo o sistema de crédito ver. A gente ampliou isso por uma auto regulação de 45 dias, justamente para que as empresas e as pessoas tenham tempo hábil de renegociar as suas dívidas sem inscrição de banco de dados do SPC ou de outro bureau de crédito, justamente para que a gente não engesse a tomada de crédito que pode servir nesse momento como um vetor de melhora de fluxo financeiro dentro do país. 



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