Entrevista da Semana

'Os negócios terão que se adaptar', diz Iomani Engelmann Gomes

Em entrevista, novo presidente da Acate comentou sobre prioridades da sua gestão e o panorama do setor durante a pandemia

Foto: Divulgação/Acate

No dia 1º de junho, Iomani Engelmann Gomes foi empossado como novo presidente da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate). Anteriormente o empresário do setor de saúde ocupava o cargo de vice-presidente de Negócios da entidade. 

Em entrevista à Rede Catarinense de Notícias, Gomes comentou sobre suas prioridades para a gestão (2020-2022) e sobre o atual panorama do setor de tecnologia durante a pandemia de Coronavírus.


Rede Catarinense de Notícias - Quais os desafios de assumir a presidência da entidade durante a pandemia?

Iomani Engelmann Gomes - Apesar de ter assumido agora, eu já fazia parte da gestão anterior, então eu já estava coordenando uma série de ações para entidade ajudar o ecossistema catarinense de inovação nesta pandemia. No eixo trabalhista, fizemos vários webinars e até um compilado das leis que afetavam diferentes empresas. Também estávamos muito preocupados com as pessoas que trabalham no setor, a questão da saúde mental, boas práticas de gestão, com pessoas trabalhando remotamente, foi um outro vetor pra gente suportar nossos associados, para conseguir dar uma infraestrutura minima e de segurança para as pessoas trabalharem.


RCN - Quais as ações que a Acate está realizando para ajudar as empresas no aspecto financeiro?

Gomes - Muitas empresas iriam atravessar um momento de crise por queda de receita, então a Acate lançou o fundo garantidor, que é um uma garantia para algum empréstimo. Diferente de outros setores, o setor de tecnologia não tem ativos, não tem maquinário, infraestrutura, para colocar como garantia num empréstimo, então muitas vezes a falta dessa garantia inviabiliza a tomada de crédito. O fundo é uma composição do dinheiro que a Acate colocou junto com algumas cooperativas de crédito que com isso, a gente consegue alavancar empréstimo de até R$ 9 milhões. 

RCN - Muito se fala numa mudança de comportamento por parte das pessoas depois da pandemia. Como o mercado de tecnologia está se preparando para esse cenário?

Gomes -  Muitas das coisas que já estavam disponíveis para ser usadas, de fato foram, como é o caso de reuniões online e gerenciamento remoto de atividades. Isso acaba afetando empresas como um todo. Operações de negócios que antes não estavam tão digitalizadas com certeza vão ser alteradas. Apesar da crise sanitária estar aguda neste momento, pelo fato de uma vacina ou solução definitiva ainda ter uma janela maior de tempo, os negócios terão que se adaptar. Então tem o aumento de demanda de coisas já conhecidas, como é o caso do comércio eletrônico, da logística, o delivery. Nós vamos ter interações com menos toques. Cito até uma na empresa do setor que eu atuo, que é na área da saúde. Laboratórios fazendo drive thru para fazer coletas de sangue. Para pessoas de idade isso é um conforto. Então tem vários setores que também tem um impacto que não vai ser só por conta do processo sanitário, mas também de um novo olhar para uma realidade que foi acometida e que eventualmente esse novo olhar vai permanecer dessa forma pós a crise.

RCN - Quais setores devem ser o mais impactados?

Gomes - A área da saúde deve ser fortemente impactada, a de tratamento com alimentos, e alguns setores que ainda estão para criar uma nova solução, principalmente a questão dos eventos e a própria educação vão ter que se reinventar. Essa questão da aglomeração vai ter que se criar uma alternativa, talvez intermediária, não somente a distância, mas também não somente física, por conta das questões sanitárias. Existe algumas indústrias que vão ter que experimentar alguns modelos em que a tecnologia possa auxiliá-los para que todo mundo fique seguro e ao mesmo tempo, sua atividade econômica consiga continuar.

RCN - Existem empresas de Santa Catarina que já estão trabalhando com esse modelo intermediário?

Gomes - Existe por exemplo no caso da saúde, a minha própria empresa lançou uma plataforma de teleatendimento médico, já que a telemedicina foi regulamentada durante a pandemia. Uma empresa do nosso ecossistema criou testes rápidos para poder testar um grupo grande de pessoas para que elas possam voltar ao trabalho, que é um outro tipo de solução. Soluções da área de delivery, educação a distância, que é um outro conjunto de soluções que o nosso Estado é muito forte, também tem se fortalecido. Então não é só um vetor, mas vários deles que foram bem criativos e se posicionaram rapidamente durante a crise.

RCN - De certa forma então vários setores estão utilizando a tecnologia para superar a crise...

Gomes - Exatamente. Um dos grandes ativos que o Estado tem é uma matriz econômica diversa, cada região tem uma vocação econômica e a tecnologia ela está justamente alicerçada para isso. Temos solução para a área de metal mecânica, agronegócio, entre outros, que é um pouco da diversificação da nossa matriz econômica e com isso, a gente tem um laboratório de inovação aberto que é uma iniciativa justamente para trazer empresas que são mais tradicionais, para que elas possam aproveitar o ecossistema de inovação e ter competitividade garantida através da tecnologia.

RCN - Como o senhor citou, a telemedicina foi regulamentada durante a pandemia. Como a Acate pretende trabalhar junto com o poder público no próximos anos nessa área de regulamentações?

Gomes - Hoje a Acate consegue dar uma visão de aspectos regulatórios para que a gente consiga ter mais competitividade no segmento tecnológico. Por exemplo o Brasil é pouco competitivo é na área de marcas e patentes. Não existe o conceito de patente de software no Brasil, e isso fragiliza as empresas brasileiras no cenário internacional. Também existem marcos regulatórios que impedem que mais tecnologia seja empregada em vários setores, como na área médica. O Brasil é um dos últimos grandes países que não tinha a prática da telemedicina regulamentada, então em toda a cadeia ser extremamente analógica ainda, acaba tendo um custo de ineficiência. Imagine que uma região mais longínqua do nosso próprio Estado muitas vezes não consegue ter um médico especialista de uma determinada patologia. Então ele poder acessar um médico, para tirar uma dúvida, ou fazer um acompanhamento da sua doença. 

RCN - Outro pilar da sua gestão é a capacitação de talentos. Quais os planos da entidade para isso nos próximos anos?

Gomes - Nós temos uma demanda alta, e a falta de mão-de-obra para o setor não é só uma realidade no nosso Estado, mas sim de todo o Brasil. Queremos fortalecer um programa que nós temos com o Governo do Estado, chamado Edutec, que tem como objetivo a formação de pessoas que já tinham uma determinada carreira técnica para ingressar na área. Do outro lado nós também queremos atuar junto ao Governo para que consigamos, junto com a iniciativa privada, a formação do jovem e adolescente que está no segundo grau, com reforço nas disciplinas que envolvem lógica e matemática, e também na formação comportamental, empreendedora, para  quando ele decidir sua carreira, a carreira técnica na área de tecnologia seja um caminho a ser escolhido e que ele já tenha uma certa experiência e possa ingressar no mercado de trabalho mais precocemente.





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