ENTREVISTA da semana

'As pessoas não são empreendedoras por opção, é por falta dela'

Em entrevista, idealizador do Cocreation Lab, professor Luiz Salomão Ribas Gomez, diz que grandes empresas têm medo de inovar

Foto: Divulgação

Luiz Salomão Ribas Gomez, professor de Design da UFSC, é o criador e mentor da metodologia de pré-incubação de negócios aplicada no Cocreation Lab, um espaço de inovação que começou em Florianópolis e expandiu-se pelo Estado inteiro

A ideia começou na UFSC, quando ele percebeu que as ideias de negócios chegavam muito cruas ao mercado. Primeiro, é preciso tirar a "ideia da cabeça e colocar no papel". Com a metodologia, ajudou a criar empresas e fomentar inovação, auxiliando pessoas detentoras das ideias.

Este ano, estão previstos programas de orientação em Blumenau. Brusque, Caçador, Chapecó, Criciúma, Florianópolis, Itajaí, Jaraguá do Sul, Joinville, Joaçaba, Lages, Rio do Sul, São Bento do Sul, Tubarão e Videira. O programa conta com apoio do poder público. 

Em entrevista para a Rede Catarinense de Notícias, ele falou sobre o cenário, o perfil e os desafios do empreendedorismo.



Rede Catarinense de Notícias - Nos últimos tempos, a gente tem um protagonismo muito grande de pequenas e médias empresas, com criação de MEIs e novos empreendedores. Como é esse novo ambiente de negócios?


Luiz Salomão Ribas Gomez - 
A inovação levou a novos métodos de trabalho. Eu dou uma palestra e a primeira coisa que eu digo na palestra é 'Você vai ser demitido'. Todo mundo vai ser demitido. Às vezes dentro da própria empresa vai ser demitido do que fazia para fazer outra coisa. A gente já vem com o empreendedorismo há muito tempo, mas agora virou moda, principalmente o empreendedorismo inovador, com tecnologia. E aí criou-se esse termo startup, que fortaleceu mais a criatividade. Startup cresce exponencialmente, se valoriza, tem um financeiro que é muito rápido, para ser comprada. Esse ambiente da inovação se fortaleceu, até porque as grandes empresas têm muito medo de arriscar, então eles deixam para os pequenos empresários, que não têm muito a perder.

Nessa pegada, a gente precisa criar ambientes propícios. Veio essa nova moda dos coworks, dos espaços de colaboração, mas numa pegada muito comercial, do mercado para o mercado. O que a gente fez aqui foi trazer uma pegada acadêmica. Desenvolvemos uma metodologia científica, comprovada dentro da universidade, que ultrapassou esse alto muro e viemos para o lado de fora. 'Isso vai dar certo porque se provou na teoria que funciona'. Não adianta funcionar na teoria, se não funcionar na prática. Unimos a teoria e a prática e desenvolvemos uma metodologia aplicada nos Cocriation Labs, que são laboratórios de cocriação para transformar ideias em negócios. A gente quer tirar a ideia da cabeça e pôr no papel. Depois que eu pôr no papel, aí sim eu posso buscar financiamento, um parceiro, um sócio, e fazer acontecer. 



RCN - Pesquisas do Sebrae apontam para uma mortalidade acima de 30% em pequenas empresas com até dois anos. Aos cinco, a mortalidade passa dos 50%. Por que isso acontece?


Salomão - 
Porque as pessoas não são empreendedoras por opção. É por falta de opção. 'Não tem outra coisa para fazer, vou ser empreendedor. Vou abrir uma lojinha'. Só que eu não sei de gestão, não sei de marketing, não sei de finanças, não sei de RH, de nada dessas coisas. Como é que eu vou sustentar o meu negócio? Ou eu vou buscar parceiros, me preparar, ou eu vou quebrar. O cara pode ter uma boa ideia, só que sem estrutura não consegue levar para frente. Existem dois tipos de empreendedores: o por opção e o por falta de opção. Na crise global, a maioria vira empreendedor por falta de opção. E isso causa um grau de mortalidade altíssimo.



RCN - Como é possível medir a competência de administrar e fazer gestão. Em geral, o brasileiro é ruim em gestão?


Salomão - 
Dá para aprender a fazer gestão. Mas em geral, é dedicação. Para ser empreendedor, tem que ter muita dedicação, porque você não tem garantia de salário no fim do mês, de 13º, de férias, não tem final de semana. Tem muito 'eu estou indo bem, consegui aprender, mas surgiu um concurso público, surgiu um emprego'. Aí eu largo meu empreendimento e vou por esse caminho. Os brasileiros têm competência. O Brasil ano passado foi o terceiro país com o maior número de unicórnios, essas megastartups. Só perdeu para Estados Unidos e China. Empatou com a Alemanha. Há uma vontade de isso acontecer, só ter o empenho total. A maioria não tem empenho. E vou falar do meu lado, que é a universidade. A universidade poderia estar mais próxima, mas ela fica muito na defesa da base teórica e não vai para a prática. E aqui a gente faz isso. Funciona, funciona muito bem. O Cocreation Lab é uma pré-incubadora, que ajuda as pessoas a pensarem suas ideias, pensarem seus negócios, e aí sim poderem colocar no papel. A gente não tira do papel, a gente coloca no papel. Hoje a gente tem um percentual de sucesso... entre 40% e 50% dos que passam por aqui, viram negócio. E desses, 50% tem sucesso. Então, a gente pode dizer que 25% a 30% das ideias realmente viraram negócio.



RCN - O senhor montou um perfil das pessoas que passam pelo laboratório?


Salomão - 
A gente até tentou, mas é o mais eclético possível. Tem jovens de 16 anos que vem aqui com espírito empreendedor. Tem senhor de 65 anos que se aposentou e quer criar um novo negócio. Todos eles são muito criativos, ponto. Todos eles são muito empenhados, mas eu não posso dizer que tem uma faixa etária, homem ou mulher, pobre ou rico. Teve equipes que eu ajudava a pagar o ônibus para vir para cá, e tinha gente que vinha de BMW. Nosso grande perfil é ser criativo. Se eu tivesse que chutar uma faixa etária é entre os 20 e 35 anos, a maioria.


RCN - Existe algum tipo de diferencial do empreendedor catarinense em relação a outros estados?


Salomão - 
Acho que o Sul é diferente. Não é só Santa Catarina. Tanto é que Curitiba acabou de ultrapassar Florianópolis no número de startups. O Rio Grande do Sul também é muito forte. Eu vejo que a nossa colonização, que é italiana, alemã, portuguesa, são de pessoas que trabalham muito com o comércio. É um diferencial positivo. O Sul é diferente, mas dinâmico, capilar, talvez porque a gente tenha menos risco.



RCN - O senhor lida, além de negócios, com pessoas. Muitas delas largam o emprego. Como o senhor vê a mudança na autoestima? Passar por aqui muda a pessoa?


Salomão - 
Muda da água para o vinho. Se falar com eles, você vai ver que eles mudaram. As pessoas mudam a autoestima, mesmo aqueles que não concluem, veem valor no empreendedorismo. Eu acho que apresentar para as pessoas os profissionais que vão mudar o mundo junto com elas, farão as pessoas repensarem a importância do empresário. Não ver o empresário o cara do mal. Eu vejo isso como uma oportunidade para todas as profissões. Para um médico, para um jornalista, um designer, um cara de TI, um artista.



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