entrevista

'Temos a tradição de pulverizar os recursos', diz superintendente do BRDE

Segundo Nelson Ronnie dos Santos, Santa Catarina tem perfil diferente de outros estados e descentraliza mais os investimentos

Foto: Divulgação
Em números prévios de 2018, SC realizou 2.420 operações de crédito, contra 1.093 do Paraná, e 640 do Rio Grande do Sul

Em entrevista à Agência Adjori/SC de Jornalismo, o superintendente do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) em Santa Catarina, Nelson Ronnie dos Santos, falou sobre investimentos estratégicos para o desenvolvimento do Estado. Para ele, 2019 será um ano de expansão 

Rede Catarinense de Notícias - Qual a avaliação sobre 2018? Foi um ano positivo para o BRDE?

Nelson Ronnie dos Santos - Nós estamos bem satisfeitos com o desempenho do Banco, apesar de todos os eventos adversos. Tivemos uma série de fatores: a eleição presidencial, e a estadual também, fizeram com que algumas pessoas postergassem projetos. O Banco trabalha muito com financiamento a projetos, não é aquele crédito financeiro, capital de giro. A gente notava que essa instabilidade política fez com que vários projetos ficassem prontos do ponto de vista de projeção, mas aguardando uma definição. Ainda assim,consideramos que foi um ano positivo.

RCN - Qual foi a principal ação do BRDE em 2018?

Ronnie - A gente tem tentado atuar de forma cada vez mais programática. Nós temos programas para atender nichos de mercado que tem relação com determinada política de desenvolvimento do Estado. Duas especificamente tem grande destaque. A primeira são os recursos do programa Avançar Cidades, do governo federal. O BRDE foi o primeiro banco a contratar as operações. Só em Santa Catarina, mais de 20% das obras das nossas aplicações estão indo para projetos de infraestrutura dos municípios. Então, isso foi uma grande ação. Entramos com recursos bem interessantes para prefeituras, com prazos longos, e muito focados na mobilidade urbana. A segunda é um novo funding com recursos do Ministério do Turismo. São recursos utilizados para financiar a atividade turística. A gente sempre financiou hotéis, hospedagens, mas sempre com as linhas do BNDES. Agora, a grande novidade é que estamos acessando um recurso do Ministério do Turismo, o Fungetur. São valores pequenos originalmente, mas a gente espera que no próximo ano tenha um grande salto. Já foram repassados R$ 30 milhões para o Banco e em 2019 serão mais R$ 70 milhões. A gente tem tentado focar muito em hotéis, pousadas, restaurantes, projetos dessa natureza. Esses são destaques de recursos nacionais, internos. E de recursos externos, a gente assinou dois grandes contratos: um com a Agência Francesa de Desenvolvimento, de 50 milhões de euros, e o outro com o Banco Europeu de Investimento, de 80 milhões de euros. Eles são voltados exclusivamente para projetos sustentáveis.

RCN - Se os empresários represaram recursos em 2018, é provável que 2019 seja um ano muito mais ativo para investimentos?

Ronnie - Com certeza. A perspectiva é bem melhor. A gente trabalha com duas etapas, uma consulta prévia e uma etapa de análise do projeto. A gente estava com grande volume de consultas prévias, mas muitos empresários nesta tônica: 'Vou esperar e ver o que acontece, como é que vai ficar o câmbio, como é que vai ficar o juro básico da economia'. Desde a definição das eleições, o fluxo de definições de projetos aumentou assustadoramente. Então 2019 vai ser bem melhor do que 2018 em termos de volume de aplicações. A gente está satisfeito com o ano passado, foi um ano ótimo, mas a gente imagina que este vai ser bem melhor.

RCN - Recentemente uma pesquisa da Fiesc apontou que alguns empresários se ressentem de financiamento em alguns setores. Como você avalia o mercado de crédito em Santa Catarina?

Ronnie - Na verdade, não houve falta de recursos. A gente até tem recursos para aumentar. O que a gente nota é que o empresário mudou o foco do financiamento dele. Há uns anos, o foco era aumento da capacidade de produção, mais máquinas, aumentando galpões etc. Hoje, o empresário, especialmente o industrial, está mais seletivo em seus projetos, está focando mais em projetos que tenham aumento de capacidade mas, sobretudo, redução de despesas. Então, aumentou muito nos últimos tempos as consultas para eficiência energética. A gente tem vários projetos para painéis solares, para geração distribuída, e que os primeiros do Brasil foram feitos pelo BRDE também. O que a gente nota é a preocupação do empresário em ter a certeza de que aquele motor, por exemplo, vai gerar aquela economia. Existe esse tipo de dúvida. O que eu tenho notado não é falta de recursos, o que eu noto é uma certa insegurança em investir porque ele não tem segurança.

RCN - Você está satisfeito com a velocidade que esses projetos estão acontecendo?

Ronnie - Acho que dá para separar. Nessa área de eficiência energética, existe um ritmo bom. Tudo é uma questão de aculturamento, é uma nova tecnologia que está surgindo. Painéis fotovoltaicos: as pessoas tem receio de investir. Agora, se um faz, o outro faz gerará aquele efeito demonstração. Tão logo se consolide, eu acredito que vai aumentar. Na infraestrutura municipal, o grande gargalo não é o financiamento propriamente dito, mas os entraves burocráticos, sobretudo ambientais. Às vezes a Prefeitura tem o financiamento aprovado no Banco, mas não consegue o licenciamento. Outro problema é a questão é as desapropriações. Tem dinheiro para a obra, mas não para as desapropriações. São esses entraves que, quando é uma obra pública, poderiam melhorar. Poderia haver um destravamento jurídico maior para esses projetos deslancharem.

RCN - E o fomento ao desenvolvimento em comparação com os outros estados que o banco atua, Rio Grande do Sul e Paraná?

Ronnie - A gente, de um modo geral, anda lado a lado. O volume de aplicação de recursos geralmente é muito parecido. Um terço, um terço e um terço. O que muda é a questão das economias. Um estado como o Rio Grande do Sul recebe um terço e nós recebemos um terço, proporcionalmente nosso volume de recursos é maior, porque somos um estado menor. Outra coisa é o tipo de aplicação. Santa Catarina tem se destacado não em volume absoluto, mas a gente tem pulverizado mais os recursos. Em quantidade de contratos, o Rio Grande do Sul fez 640, o Paraná 1.093 e nós temos 2.420. São parciais de 2018. Embora em valores a situação é parecida, somos mais pulverizados. São operações mais para micro e pequenas empresas, de menor porte, mais projetos, em quantidade. A gente tem a tradição de pulverizar os recursos.

RCN - Em 2018, o Banco atingiu R$ 2,25 bilhões em financiamento. Quanto é possível atingir em 2019?

Ronnie - No nosso planejamento estratégico, a gente projeta um crescimento para o ano que vem em torno de R$ 2,5 bilhões. Isso é bem representativo. Mas é um orçamento, se a demanda seguir crescente, nada impede que se reavalie esse número. A gente sabe que a nossa economia vinha andando meio de lado, mas qualquer crescimento econômico que surgir no PIB de 2019, vai faltar tudo: vai faltar estrada, vai faltar porto, vai faltar energia. E aí a gente vai ter que entrar mais forte no fomento. E o Banco está preparado para isso. O BRDE está muito sólido, os indicadores estão bem seguros. Nós teríamos espaço para aumentar acima de R$ 2,5 bilhões com tranquilidade.






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