ANTONIO GAVAZZONI
Advogado e doutor em Direito Público
contatogavazzoni@gmail.com

Quem diria?

01 Junho 2018 08:00:00

Depois do que aconteceu na última semana, fica fácil apontar as causas da dimensão que tomou a greve dos caminhoneiros país afora. Mas até então vivíamos desconsiderando solenemente a possibilidade de ficarmos paralisados por uma greve dos profissionais do setor. A crise escancarou distorções tributárias, fragilidade do Governo, uma perigosa dependência rodoviária, entre tantas outras situações históricas. Mas até que acontecesse, tocávamos nossas vidas sem atentar para esse risco. "Do nada", assistimos um movimento pacífico que cresceu rapidamente sem necessariamente um comando superior ou centralizado. E ficamos surpresos, admirados. Da mesma forma que ficamos em 2001, no ataque terrorista às torres gêmeas nos Estados Unidos. A nossa enorme incapacidade de prever o improvável nos dá essa sensação de impotência. 

A esses eventos raros e impactantes, que acabam por promover pequenas ou grandes mudanças no rumo da história, o escritor e matemático líbano-americano Nassim Nicholas Taleb deu o nome de Cisnes Negros. Isso porque a humanidade acreditava que todos os cisnes eram brancos, até que um animal da cor preta foi descoberto na Austrália. Ou seja: o fato de não conhecermos alguma coisa não quer dizer que ela não exista. No livro "A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável", Taleb nos leva, ao longo de quase 500 páginas, a rememorar uma série de acontecimentos inesperados que acabaram por alterar os rumos da história - desde a descoberta, por Nicolau Copérnico, no século 15, de que a Terra não era o centro do universo, até o surgimento da internet. Em comum, esses fatos tinham a característica de não terem os impactos de suas consequências calculados.

Nossas mentes são programadas para lidar com o que já vimos antes, por isso os cisnes negros são armadilhas lógicas. Existem algumas formas de minimizar os impactos desses acontecimentos. Uma delas é ter informação - e trabalhar com ela por meio da gestão de riscos. Nesse caso dos combustíveis, quem tinha estoques dos produtos essenciais para sua atividade profissional ou para a sua vida cotidiana, sentiu menos os efeitos do desabastecimento. Quem estava atento às primeiras notícias correu para encher o tanque e ganhou uma autonomia maior para sua locomoção.

Outra forma de lidar com o que não esperamos é abrir nossas mentes ao que não acreditamos. Quando prestamos atenção àquilo que não confirma nossas crenças, estamos desafiando nossas mentes, possibilitando descobertas e evitando a miopia mental, que nos impede de ver mais longe. Outra maneira de confrontar o imprevisto é tentar focar nas possíveis consequências que virão assim que ele acontece e, dessa forma, nos prepararmos para elas.

Quando somos totalmente surpreendidos, nos sentimos ignorantes. E essa não é uma sensação agradável nem fácil de aceitar. Por isso, imediatamente após um acontecimento "cisne negro", surgem rapidamente milhares de "especialistas" no assunto tentando explicar o que ninguém calculou. No momento estamos experimentando as consequências de um acontecimento inesperado. Mas ainda é cedo para saber se ele trará alguma mudança significativa, alguma quebra de paradigma, se será realmente um cisne negro. Ou se, mais uma vez, estaremos somente pagando o pato.

Antonio Gavazzoni, advogado e doutor em Direito Público

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