ANTONIO GAVAZZONI
Advogado e doutor em Direito Público
contatogavazzoni@gmail.com

Momento Mori

16 Fevereiro 2018 00:04:00

Uma coisa eu tenho certeza a seu respeito, leitor: você vai morrer. Eu também vou, meus amigos e parentes, da mesma forma. Mesmo sabendo disso desde sempre, muitos de nós ainda vivemos como se fôssemos eternos. Não nos organizamos para o fim. Não planejamos nossa partida. Não gostamos nem de conversar sobre o assunto com aqueles que amamos.

Estamos errados e, já que estamos vivos, devemos consertar esse erro e falar de morte como a coisa mais natural do mundo - o que realmente é. Admitir que somos finitos é um ótimo caminho para a humildade e para a valorização da vida.

Conta a lenda que na Roma Antiga um general retornava vitorioso de uma batalha e chegava em sua cidade natal para ser recebido com todas as honras por seu povo. Atrás do general, um sábio conselheiro lhe dizia ao ouvido: "Respice post te. Hominem te esse memento. Memento mori." Ou: "Olhe em volta e não se esqueça de que você é apenas um homem. Um dia você vai morrer".

A consciência do fim deve servir não para nos colocar para baixo, mas para nos ajudar nos piores e melhores momentos. Quando estamos no auge, é bom lembrarmos que tudo tem um fim. Assim saberemos valorizar ainda mais nossas conquistas. E se estamos em situação contrária, sofrendo, também nos ajuda saber que aquilo invariavelmente vai passar.

Aqui no Brasil, Chico Xavier costumava ilustrar isso com a frase "Isso também passa", utilizada por ele como conselho na alegria e na tristeza. Tanto servia como lição de humildade como de ânimo nas provas mais difíceis. A frase simples sintetiza a finitude de tudo.

O sofrimento passa, a glória passa, só ficam as nossas realizações em favor dos outros. Se é certo que vamos morrer, nos cabe viver da melhor forma. Realizar, ajudar, fazer diferença, viver com intensidade, trocar experiências, enriquecer a alma. E, por que não, preparar nossa saída de cena?

Se você morresse amanhã, deixaria muitos problemas para os outros? Muitos de nós acumulam coisas que não terão a menor utilidade depois da partida e que darão bastante trabalho para quem ficar. Uma vida organizada permite uma despedida mais leve. Se temos contas, seguros, podemos ter alguém de nossa confiança com quem compartilhar. Devemos deixar claro se tivermos alguma preferência de ritual de passagem, se somos doadores de órgãos e, principalmente, ajustar nossas diferenças com quem amamos. Não se trata de apressar a morte, mas de facilitar a vida de quem continua. Quantas famílias se romperam por brigas em torno de heranças? Quem tem a sorte de acumular bens para deixar aos seus, deve pensar nisso. Organizar e, se possível, deixar claro em vida que destino quer dar ao que acumulou. Quem não tem riquezas materiais, pode se concentrar em deixar memórias positivas a seu respeito.

Para nós, humanos e finitos, nada deve ser mais importante que deixar uma marca de nossa passagem. Se o corpo padece, nós sobrevivemos nas lembranças daqueles com quem convivemos, nos ensinamentos que passamos, nas palavras, gestos e ações. Essa herança não é mensurável. Quem, como eu, já perdeu alguém muito próximo, sabe que, depois do sofrimento da separação, o que ficam são as memórias que nos chegam em momentos inusitados, trazidas por uma palavra, uma música, um sabor, um aroma. Talvez essa seja a nossa forma de nos fazer eternos. Vida longa aos leitores!

Antonio Gavazzoni, advogado e doutor em Direito Público

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