ANTONIO GAVAZZONI
Advogado e doutor em Direito Público
contatogavazzoni@gmail.com

As lições de Hawking

27 Março 2018 02:05:00

Essa semana uma daquelas mentes brilhantes que de tempos em tempos povoam a Terra partiu. O físico teórico e cosmólogo britânico Stephen Hawking contrariou muitas probabilidades e nos deixou lições que vão bem além do seu inestimável legado científico. Ficar vivo até os 76 anos foi uma delas. Hawking desafiou todas as previsões médicas recebidas após o diagnóstico esclerose lateral amiotrófica (ELA), aos 22 anos. A previsão era que sobrevivesse apenas por mais dois. Com o fundamental apoio de sua primeira esposa, Jane (sobre quem escrevi em artigo de janeiro deste ano) e da tecnologia disponível para sua comunicação, ele casou, teve filhos, separou, casou novamente e não interrompeu sua produção intelectual. Tornou-se doutor em cosmologia e foi professor de matemática na Universidade de Cambridge. Escreveu 14 livros, ntre eles "O universo em uma casca de noz" e "Uma breve história do tempo". Por conta da ELA, Hawking, durante o estágio avançado da doença, só conseguia mover um dedo e os olhos. 

Apesar de ser declaradamente ateu, sua longa vida foi praticamente um milagre. Na sua trajetória espetacular, Hawking mostrou que, embora não possamos determinar nosso destino, podemos dar o nosso melhor enquanto tivermos condições. E, se não as tivermos, podemos fazer mesmo assim, reinventando o jeito de fazer. A partir de sua cadeira de rodas, Stephen confrontou e derrubou teorias, mudou a maneira de pensar de muitos "gênios" e influenciou toda uma geração de cientistas pelo mundo. Se tornou um dos cientistas mais conhecidos do mundo ao abordar temas como a natureza da gravidade e a origem do universo. Não utilizou todas as desculpas a que teria direito para se submeter às limitações físicas.

Mostrou que não precisamos de pernas para ir longe, mas de amor e apoio. Que mesmo um gênio só o pode ser se aceitar ajuda. Que o que somos é muito maior do que o que paremos ser. Hawking foi um exímio comunicador sem falar, um homem bem humorado sem gesticular. Um ser humano gigante, apesar de seu corpo frágil e franzino. Em uma de suas muitas frases célebres, ele disse, aos 70 anos: "Olhem para as estrelas, não para os seus pés".

Não se acomodem, não se apequenem, não se prendam ao que não podem fazer, não se sintam o centro do universo, vivam, voem. Com sua existência, Hawkings deu um soco no estômago de uma sociedade que cada vez mais cria prisões para si mesma. Que se apega a gênero, raça, condição social, moda, status e opiniões alheias. Como somos pequenos diante do nosso enorme potencial realizador. Nossas prisões somos nós que erguemos.

Em 2004 ele declarou à revista The New York Times: "Minhas expectativas se reduziram a zero quando tinha 21 anos. O restante foi um presente." Viver sem expectativas pode ter sido justamente a chave para sua longevidade. Como última lição, Stephen Hawkings mostrou involuntariamente que a ciência também é falha, quando tem a pretensão de determinar nosso tempo de vida, nossa capacidade e nosso destino após partir dessa existência. E que quando deixamos um legado, continuamos vivendo por muito tempo na memória dos que ficam.

Antonio Gavazzoni, advogado e doutor em Direito Público

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