ANTONIO GAVAZZONI
Advogado e doutor em Direito Público
contatogavazzoni@gmail.com

A politização do Carnaval

26 Fevereiro 2018 13:14:00

A fantasia deu lugar à realidade nua e crua no Carnaval 2018. Com duras críticas à violência, à corrupção e à crise política e moral que assola o Brasil, enredos de escolas de samba acabaram dando tom de desabafo para aquela que é a maior festa popular do planeta. O que se viu e ouviu, em cinco dias e noites de desfiles nos sambódromos e nos blocos de rua de todo o país foi a politização da folia. 

Acompanhei os melhores momentos do Carnaval pelos jornais e na televisão - aproveitei os dias de folia ao lado dos meus filhos e familiares. Em São Paulo, a Império da Casa Verde levou "paneleiros" para o Sambódromo do Anhembi, num enredo baseado no livro "Os Miseráveis" de Victor Hugo. A escola fez um interessante paralelo com as manifestações Brasil afora, falou da luta contra a corrupção e dos privilégios de uma pequena parcela da população.

Os protestos sociais também pautaram os famosos desfiles no Rio de Janeiro. Com o enredo "Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu", a Beija-Flor sagrou-se campeã do Carnaval 2018. Na Sapucaí, relembrou cenas marcantes da história recente do Brasil, como a conhecida "Farra dos Guardanapos" - episódio no qual o ex-governador Sérgio Cabral e assessores dançaram com guardanapos nas cabeças em um luxuoso restaurante em Paris (França). Como não se impressionar com o "Prédio da Petrobras"? A alegoria expôs no sambódromo nossas "feridas sociais": crianças abandonadas, um policial morto em meio à guerra urbana e um rato gigantesco, em alusão aos políticos brasileiros.

Destaqueainda para a Paraíso do Tuiuti, vice-campeã do Carnaval 2018, que levou para a Sapucaí o enredo "Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?". Tendo como pano de fundo a Lei Áurea, a escola tratou da exploração do homem pelo homem. O que dizer da ala dos "Manifestoches" ou mesmo do "Vampiro Neoliberalista"? Acredito que as críticas não estão direcionadas ao governo A ou B. O que está em discussão é o atual sistema e algumas das maiores preocupações da sociedade atualmente: o medo da violência, o descrédito da classe política, abandono e angústia da população.

O recado está dado. Basta de mau uso do dinheiro público e desvio de recursos. Basta de obras superfaturadas, direcionamento de licitações, malas de dinheiro sendo transportadas para lá e para cá na calada da noite. O trabalhador brasileiro não quer - e nem pode - perder direitos conquistados a duras penas desde a aprovação da Lei Trabalhista. Cabe aos governos aprovar e manter políticas que tornem o sistema que aí está sustentável e garantam o futuro destes cidadãos - foi o que fizemos em Santa Catarina, com a aprovação da Reforma da Previdência e a criação da SCPREV. E o que para mim talvez seja o pior dos cenários: não podemos continuar assistindo, inertes, a morte de crianças inocentes, vítimas de balas perdidas em tiroteios entre traficantes e policiais.

O Carnaval 2018 contou mais do que histórias. Foi, certamente, uma das festas mais politizadas dos últimos anos. Com uma forte veia social, o samba traduziu o sentimento de uma nação, aquele grito que estava entalado na garganta. Basta ao modelo que aí está e não pode continuar. Já não era sem tempo.

Antonio Gavazzoni, advogado e doutor em Direito Público

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