ANTONIO GAVAZZONI
Advogado e doutor em Direito Público
contatogavazzoni@gmail.com

É preciso coragem

19 Janeiro 2018 13:54:58

Não é apenas impressão. O mundo anda bastante intolerante, abrindo espaço para extremismos e radicalismos nos campos político, ideológico e religioso. E os intolerantes são mais corajosos para se expressar, pelo que tenho observado. Me dei ao trabalho de ler comentários em diversas matérias na internet sobre refugiados, sobre pessoas que precisaram abandonar seu país, famílias e origens para escapar do inferno. Algumas contavam suas histórias e mostravam como estão se adaptando à nova vida no nosso país. Nos comentários, os intolerantes dominavam, com adjetivos ofensivos para desqualificar aqueles seres humanos já tão castigados. Nem crianças são poupadas dos despautérios odiosos dos intolerantes. Eles não têm medo de expor seus pontos de vista com veemência. 

Enquanto isso, os mais empáticos e altruístas guardam suas impressões para si. Não defendo nenhum bate-boca ideológico via internet. Mas acredito que os mais fortes deveriam sempre defender os mais fracos. Por que os "haters" ganham tanto espaço e encorajam outros a se unir a eles? Enquanto isso, os sensatos lamentam o rumo que as coisas estão tomando.

Óbvio que o campo para essa discussão não é o dos comentários de internet - pelo menos, não somente esse. Mas espaços e oportunidades não faltam para defendermos o que achamos correto. Na mesa de bar, no elevador, nas reuniões em família, muitas vezes ficamos quietos para não nos incomodar. Assim fazem os que testemunham violência contra mulheres, crianças, idosos, animais e nada dizem, nada denunciam. Guardadas as proporções, são formas de conivência.

Há muitas maneiras de expor nossas ideias sem partir para a briga. Podemos escrever, publicar, opinar, interferir de maneira pacífica. É só conversando que a gente se entende. Enquanto houver muito mais espaço para a crítica destrutiva, nos manteremos no campo das lamentações e do conformismo.

Voltando às matérias sobre refugiados, uma delas contava a trajetória de Omana Kasongo, um refugiado de 52 anos da República Democrática do Congo (ex-Zaire) que, aqui do Brasil, ajuda outros 1.500 refugiados de seu país. Ele chegou ao nosso país há cinco anos, depois de ter passado pela experiência de quase morrer, baleado e deitado numa vala, sentindo o sangue de seus compatriotas escorrer sobre seu corpo. Ao descrever seu trabalho de apoio aos refugiados, diz que tem "fome de ajudar", apesar de todas as dificuldades e forças contrárias. Com o sorriso aberto e positividade, Omana dá ao repórter e a seus leitores um enorme aprendizado: "Se alguém te fizer mil vezes mal, faça a ele mil vezes bem".

Omana é odiado por muitos. Para os intolerantes, é mais um "vagabundo roubando nossos empregos". Não o conheço e dele nada sei além do fato de que é um ser humano tentando ajudar outros. Isso é coragem, é sair da zona de conforto. É agir.

Os bons precisam ser corajosos. Ter coragem para mudar ideias pré-concebidas, influenciar outros, questionar estruturas ineficientes e privilégios. É no campo das ideias que nascem as mudanças. Se você não concorda, não finja que não ouviu. Argumente. Até os intolerantes, depois de latir, pensarão no que for dito com educação e propriedade.

Antonio Gavazzoni, advogado e doutor em Direito Público

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