ANTONIO GAVAZZONI
Advogado e doutor em Direito Público
contatogavazzoni@gmail.com

À moda antiga

02 Novembro 2017 19:04:00

Em artigo encaminhado aos jornais da Adjori/SC, advogado fala sobre como os novos tempos afetam os relacionamentos

Essa semana completamos, eu e minha esposa, dez anos de casamento. Se considerarmos nosso longo namoro, são 26 anos de união. Um feito para a nossa geração e um desafio para os que ainda nem começaram a se relacionar afetivamente. Nesses tempos de amores líquidos e relacionamentos virtuais, uma união verdadeira e duradoura é fato digno de comemoração. Resultado de dedicação, abnegação, tolerância, muito amor e - inegavelmente - um pouco de sorte. Afinal, com tanta gente no mundo, encontrar uma parceria de vida não é assim tão simples.

Embora o casamento seja o início da constituição de uma família, a relação entre os cônjuges não é de parentesco, ou seja, não é compulsória. Se dá, ou pelo menos assim deveria ser, por afinidade. E afinidade é relação eletiva. Para muitos, essa conexão com o par demora a acontecer, só vem após muitas experiências. Para outros, ela nunca acontece. No meu caso, a afinidade surgiu já na adolescência, e vem se fortalecendo com o passar dos anos.

Pergunto-me se esse relacionamento aconteceria da mesma forma hoje, se eu estivesse com menos de 20 anos, numa sociedade sem tempo a "perder", na qual se selecionam conteúdos, entretenimentos e relacionamentos com as pontas dos dedos. Talvez eu não me desse a chance de conhecer e ficar com a mulher da minha vida. Talvez ela também não quisesse se amarrar. Afinal, toda essa conexão a que temos acesso traz também a facilidade de desconectar.

Não raro ouço histórias de adolescentes, filhos de amigos, que trocam facilmente a ida a um barzinho por horas na internet. E não precisa ser muito jovem não. Tem muito adulto sem paciência de abrir mão de suas manias em troca de um relacionamento. Parece bem mais fácil escolher um parceiro num aplicativo do que empenhar meses em conhecê-lo, ainda correndo o risco de não dar em nada. Sem falar nas tantas questões de insegurança - física e psicológica - que afastam cada vez mais as pessoas umas das outras.

A velocidade da informação, o consumismo que nos leva a substituir rapidamente as versões dos nossos produtos, acabam inconscientemente transferindo esse ritmo alucinante também aos relacionamentos. Se não já não vale mais a pena levar um produto para consertar, porque vamos aturar todos os defeitos do nosso parceiro, se há tantas possibilidades de novas versões? "Até que a morte os separe" parece algo cada vez mais inconcebível num mundo onde quase nada dura para sempre.

Um dos meus autores preferidos, o qual já citei em diversos artigos, Zygmunt Bauman definiu com maestria esse fenômeno dos relacionamentos descartáveis no livro Amor Líquido. Um amor líquido escorre pelas mãos, não tem forma, dura pouco. E, principalmente, não tolera. Ao primeiro sinal de defeito, evapora.

Exatamente o oposto de um relacionamento sólido como o casamento. Não existe relacionamento que seja perfeito o tempo todo. Mas é justamente na imperfeição que mora a magia. No fato de ter alguém que gosta de você com todos os seus problemas, com quem você pode se sentir à vontade sendo o que realmente é. Uma parceria que encara as desventuras e alegrias e se fortalece com elas. Casamento é uma prova com obstáculos a qual muitos não se submetem, seja por medo ou por opção. Mas para aqueles que decidem abraça-lo, é um privilégio com muitas compensações.

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