FATOS E INTERPRETAÇÕES
Coluna assinada pelo corpo docente da Unisul

Moisés e a renovação do modelo político, por Laudelino José Sardá

As velhas e surradas práticas e as tentativas de se romper com o modelo secular de artimanhas públicas constituem capítulos inesquecíveis da história política catarinense. No começo dos anos 70, por exemplo, eu iniciava no jornalismo, quando o diretor Alírio Bossle do antigo Diário Catarinense, órgão dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, convocou-me para entrevistar Colombo Salles, já designado pelo general Emílio Garrastazu Médici para suceder Ivo Silveira no governo do Estado. E Colombo resumiu suas estratégias em uma frase: "ou mudo a cultura política de Santa Catarina ou serei apenas mais um". E acabou famoso por tentar derrubar as oligarquias. 

Noutra ocasião, a repórter de O Estado, Imara Stalbaum, foi pautada para ouvir Colombo Salles, já entronado no governo. E ele foi enfático: "Não gosto de falar de política. Vou fazer um governo técnico, voltado para as necessidades de Santa Catarina". E a manchete de O Estado foi: "Um governador que não gosta de política". Colombo realizou um bom governo, reconhecido em todo o Estado.

Foram poucos os governadores que inovaram no estilo de governar imunes aos velhos hábitos partidários. Celso Ramos, mesmo fazendo parte da oligarquia, evidenciou-se como um revolucionário, que levou Santa Catarina a ser uma referência econômica e social para a Nação. E o seu idealizador, economista Alcides Abreu, doutor pela Sorbonne, de Paris, dizia que em sua estratégia prevaleceu a presença das universidades comunitárias, que constituem o sistema Acafe. Alcides criou a Udesc, Besc, o modelo de microrregiões, Casan, Badesc e tantas outras organizações que ajudaram a fortalecer a infraestrutura do desenvolvimento catarinense.

Ivo Silveira, sucessor de Celso, destacou-se com a expansão das escolas públicas e, com uma canetada, concedeu aumento de 400% aos professores da rede estadual. Konder Reis, com o idealizador incansável Osvaldo Della Giustina, revolucionou o modelo de mercado, implantando a Fundação Catarinense do Trabalho e o Sistema Nacional de Emprego, o SINE, expandido para todo o Brasil. E com o lema "Governar é encurtar distâncias", Konder minimizou os graves problemas de rodovias no Estado.

Neste ano, 2019, Carlos Moisés, que de aposentado e pescador virou governador, por força de uma episódica exigência da sociedade, fugiu à insegurança da missão e estufou o peito para se garantir em um processo de mudança, apostando, ainda com timidez, em ruptura da cultura política e, principalmente, nas relações com os meios de comunicação. Em meio a aguaceiros de opiniões e críticas de jornalistas, Moisés manteve-se em silêncio, reagindo apenas com atitudes e ações. Reestruturou o governo, deu funções a órgãos ainda estratégicos, como o SCPAR, manteve a sua vida social sem espalhafato, mas ainda não se soltou com segurança no cenário político, aparentando estar ainda se equilibrando na corda, de vez em quando afrouxada por destemidos caciques.

Aos poucos, tenta influenciar na mudança da cultura política, como a Nação está exigindo. Teve a sorte de contar na presidência da Assembleia com um rebento do político experiente Jorge Bornhausen, o deputado Júlio Garcia, que, como diria Alírio Bossle, fuma cachimbo sem esquentar os beiços.

As atitudes de reformas estruturais e as decisões administrativas inovadoras lançam perspectivas para um governo empreendedor e condensador, que projeta obras sem pensar em engordar a estrutura administrativa. A burocracia sofre uma lipoaspiração e isso sintetiza a disposição do governo de Moisés de assumir a transparência e fugir à ambição político-partidária.

Com essa coragem, Moisés vai monitorando mudanças sucessivas no processo de readequações políticas, sem precisar fazer estrondo para nulificar velhas práticas herdadas das oligarquias, que se alternaram no poder por mais de um século.

Moisés renova também nas relações com a imprensa. Prefere o silêncio a ter que se expor diariamente com palavras muitas vezes descobertas de razão. E alguns jornalistas culpam-no por ele não se dispor a hablar todos os dias pelo celular. Faz bem Moisés, que, da mesma forma, ajuda a mudar a cultura do jornalismo, habituado a passar recados ou simular pensamentos de "lobos" políticos. Contudo, Moisés precisa compreender a necessidade de estabelecer uma sincronia entre o verbo público e o modelo de governar, escapando-se das trilhas bolsonarianas, em que o presidente está sempre derrapando, com frases destoantes e agressivas.

O jornalismo, em pleno século 21, precisa mudar também começar a informar com reflexão sobre as ações do governo em suas regiões. Não podemos mais conviver com o disse-disse. Está na hora de os veículos de comunicação, principalmente os jornais comunitários do interior, estabelecerem a relação entre suas regiões e o estado, de forma que Santa Catarina pense em sua estrutura geoeconômica, ainda uma referência nacional. A imprensa precisa acordar o governo para a importância de refletir e investir no modelo de desconcentração e diversificação econômica e na cultura de comunidades fortes e autônomas. Somos o único Estado cuja capital não tem a maior população e nem mesmo lidera o ranking da economia. A nossa inteligência está desconcentrada e o governo necessita investir na revitalização deste modelo. É oportuno lembrar a advertência do professor Glauco Olinger, 96 anos, fundador da Acaresc (hoje Epagri), Embrapa, Curso de Agronomia da UFSC e ex-secretário da Agricultura: "Até 2030 cerca de 100 mil famílias vão abandonar o campo e inchar as cidades". Sem dúvida, um risco incalculável.

Para isso, o papel da imprensa, principalmente dos jornais do interior, é exigir do governo o revigoramento desse modelo.

Da mesma forma, prefeitos e outras lideranças regionais também não podem fugir às mudanças na cultura política. É oportuno e salutar dar um basta às velhas práticas do favoritismo político-eleitoral. Agora, a sociedade acordou-se para os seus direitos e só vai aceitar políticos de boas práticas e de ideias inovadoras. O "toma-lá-dá-cá" já está em processo funeral.

Laudelino José Sardá, jornalista e professor 





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