FATOS E INTERPRETAÇÕES
Coluna assinada pelo corpo docente da Unisul

Compromissos e desafios da sociedade que não tem tempo, por Luciana Felipe

09 Abril 2018 14:09:00

Quando li este pensamento no livro "A essencial arte de parar" de David J. Kundtz (1999), imediatamente fiquei procurando motivos para refutá-lo. Não sei se era o meu consciente ou inconsciente que estava agindo, mas tenho que reconhecer que não queria admitir a verdade que ele expressa. Talvez por isso logo tenha pensado "não se trata de não saber o que fazer, mas de sempre ter o que fazer". É um infindável conjunto de atividades, que são justificadas por motivos óbvios: precisamos trabalhar para sustentar a família, vestir, ter lazer, pagar o colégio das crianças, o plano de saúde, a internet, a TV por assinatura .

E, assim, a sociedade vai esquecendo de sua necessidade de momentos de contemplação, reflexão e participação e, segue vivendo sob o jugo de um sistema onde tudo e todos são transformados em mercadoria. Acumulamos empregos, corremos contra o relógio, mantemos a agenda cheia, comemos a qualquer hora (ou a hora que der), qualquer coisa (ou o que estiver mais acessível ou mais nos seduzir) e em qualquer lugar (ou no lugar que mais nos atrai ou mais atrai nossos filhos pelas cores, associações, moda...); e acreditamos que deve ser assim. Aliás, alguma coisa parece estar errada quando não é assim. Sentimo-nos alienados, perdendo espaço no mercado de trabalho, menos importantes, ultrapassados, obsoletos ou deixados de lado. Kundtz (1999), chama isso de "engate".

Segundo ele, se colocarmos dois relógios de pêndulo fora de sincronia, um do lado do outro, em pouco tempo eles entrarão em sincronia perfeita. O mesmo acontece com os seres humanos, "pegamos os ritmos uns dos outros e os ritmos acumulados do mundo à nossa volta". E, só assim nos sentimos em sincronia. Diante de tudo isso (e da óbvia constatação de que Susan Ertz não estava errada) comecei então a me perguntar se, não é altamente perigoso estarmos permanentemente ocupados. É claro que sim. Ocupados, não temos tempo para pensar, para refletir e para criar subsídios consistentes para questionar, criticar, refutar e inovar.

Devemos reservar um pouco de nosso "precioso e tão disputado tempo" para refletir sobre uma avalanche que está nos soterrando quase sem percebermos. É urgente uma reflexão sobre o "processo de coisificação que sofremos" (GAWRYSZEWSKI, 2003, p. 3). Por isso, entendo que precisamos trazer essas discussões para o interior das salas de aulas, para espaços formais e informais, para nossos grupos de WhatsApp e redes sociais, para os meios de comunicação.

Precisamos analisar, se realmente estamos trabalhando para um processo de inovação e qualidade de vida ou se estamos apenas reproduzindo conteúdos oriundos de um sutil processo de adestramento. Ou seja, é necessário reorganizar nosso tempo, nossas prioridades, revisar nossos valores e conceitos e, revisitar nosso senso de coletividade e responsabilidade toda vez que nossa consciência insistir em dizer: não tenho tempo!

Luciana Flôr Corrêa Felipe, professora da Unisul e Doutoranda em Educação Científica e Tecnológica 

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