ARTIGOS

Eleições e choque de realidade

11 Outubro 2018 11:07:00

Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de SC (Faesc) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/SC)

Foto: Divulgação

O Brasil vai às urnas - agora, em segundo turno - para eleger seu quinto presidente da República após o processo de redemocratização em um indesejável clima de confronto. A Nação está dividida. O que deveria ser a festa da democracia e da civilidade ameaça se tornar um momento de tensão e embate. Nesse momento, as lideranças políticas, empresariais e comunitárias precisam exercer com seriedade e compromisso seu papel de orientação e estímulo no sentido do respeito às diferenças de opinião, de opção político-ideológica e de escolha, mas, acima de tudo, professar de forma clara e inequívoca a necessária obediência às regras da convivência democrática. Mister se torna rejeitar movimentos desestabilizadores de esquerda ou de direita - se é que essas definições e conceitos ainda fazem sentido.

Durante minha vida de empresário rural, dirigente sindical e cooperativista sempre convivi com eleições diretas, indiretas e diferentes processos de eleição e escolha. Descobri que é preciso muita maturidade, formação democrática e culto à liberdade de oportunidades para viver em uma sociedade livre, pluralista e democrática - e mesmo em uma organização que preze a liberdade de adesão e a gestão democrática. Não fosse assim, a insurgência contra resultados eleitorais que desagradam o líder seriam sempre contestados, deixando em crise constante a organização.

Muitos aspectos emolduram as eleições de 2018 com as cores da incerteza. As democracias se consolidam com Partidos Políticos fortes, seculares, com manifestos, postulados e estatutos que expressam ideologias estruturadas e defendidas com lealdade por seus integrantes. Essa é uma deficiência histórica na democracia brasileira, onde os Partidos proliferam, não se eternizam, negam na prática os postulados que professam e, quando no poder, não aplicam os princípios que defendem. Sintoma claro e grave dessa distorção é a infidelidade partidária que vigora nessa eleição. Candidatos escolhidos em convenções partidárias regulares são abandonados pelos seus correligionários, alianças formalizadas são esquecidas e compromissos ignorados. A influência das pesquisas baliza conveniências que atropelam a composição do quadro político-partidário.

A evolução do processo eleitoral resultou neste segundo turno com um cenário extremamente polarizado e radicalizado. Programas de governo e as formas e fórmulas para equacionar os grandes problemas nacionais não foram aprofundados. Ataques de lado a lado, calúnia, injúria e difamação foram a tônica lamentável desse episódio. A mentira e a flexibilização da verdade foram constantes. Marqueteiros criaram recursos para convencer eleitores sem nenhum compromisso com a realidade. Ora temos a impressão que vivemos em uma Suíça e não sabíamos, ora pensamos estar num Afeganistão sem perceber...

Entretanto, a pirotecnia de comunicação e marketing não impedirá o inexorável e duro choque de realidade. Logo após a posse, o futuro governante terá que abandonar o proselitismo para enfrentar uma realidade avassaladora. Ou se fazem as reformas estruturais necessárias para colocar o País num quadro de racionalidade administrativa ou logo não haverá condições de governabilidade. Reformas tributária e previdenciária, redução da máquina administrativa, corte de cargos, implantação de programas de controle de qualidade e avaliação de desempenho e demais medidas de austeridade serão necessárias para a redução da despesa pública e a retomada do equilíbrio fiscal.

As reformas são necessárias e emergenciais sob pena do País entrar em colapso. Quem paga imposto neste País - o trabalhador, o consumidor e o empresário - não suportam mais o esmagador peso do imenso, perdulário, lerdo e ineficiente Estado nacional brasileiro. É uma pena que a ilusão e a irresponsabilidade de muitos candidatos tenham colocado temas populistas na pauta, como a ampliação de direitos do funcionalismo público, a contratação de mais servidores, o lançamento de novos programas sociais - com a negação da gravíssima realidade econômica do País e das condicionantes fiscais do Estado. Essas narrativas desconectadas da realidade apenas prejudicam a compreensão do momento histórico que vive a Nação brasileira. Doa o que doer, a situação é de reforma ou morte! O Estado brasileiro já perdeu a capacidade de investir; agora pode perder a capacidade de seu próprio custeio. E estamos muito próximos disso.



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