ARTIGOS

Artigo: 'Acaso, sorte ou mentes preparadas?', por Antonio Gavazzoni

14 Julho 2017 13:22:00

'Para enxergar o que muitas vezes está debaixo do nosso nariz, é preciso quebrar paradigmas, pensar fora da caixa, lançar outro olhar'

Winston Churchill certa vez observou: "Os homens ocasionalmente tropeçam na verdade, mas a maioria se equilibra e vai embora como se nada tivesse acontecido". A esses tropeços, que ganham mais atenção de uns que de outros, deu-se o nome de serendipidade.  A palavra é antiga, foi criada em 1754 pelo político e escritor Sir Horace Walpole após ter lido um conto intitulado 'Os três príncipes de Serendip', no qual os personagens, conforme viajavam, iam fazendo descobertas, por acidente ou por sagacidade, de coisas que não estavam procurando.

Seria fácil classificar os cientistas e inventores que exploraram a serendipidade como apenas sortudos, mas também seria injusto. Todos eles conseguiram aproveitar suas observações casuais somente depois de terem acumulado conhecimento suficiente para colocá-las num determinado contexto. Como disse Louis Pasteur, um dos que se beneficiou da serendipidade, "o acaso favorece a mente preparada".

Aqueles que querem ser tocados pela serendipidade devem estar prontos para abraçar a oportunidade quando esta se apresenta - e a história da ciência e da tecnologia é farta de exemplos. Em 1948 George de Mestral saiu para caminhar em um campo da Suíça, e viu algumas sementes espinhosas grudadas em suas calças. Em vez de sacudir ou escovar as partículas incômodas, reparou que seus ganchos finos tinham ficado presos nas dobras do tecido. Ali surgiu a inspiração para inventar o Velcro.

Art Fry tentava desenvolver uma supercola, mas produziu uma cola tão fraca que dois objetos grudados com ela poderiam ser separados com facilidade. Fry, que era membro do coro da igreja local, cobriu pedaços de papel com sua fracassada cola e os usou para marcar as páginas do seu caderno de hinos. Assim nasceram os adesivos do tipo post-it.

A descoberta da penicilina por Alexander Fleming foi resultado de uma partícula de fungo penicillium flutuando através de uma janela e caindo em um disco de Petri (aquele recipiente cilíndrico, achatado, de vidro, que os profissionais de laboratório utilizam para a cultura de microorganismos). Ao cair lá dentro, a partícula matou uma cultura de bactérias. É bem provável que muitos microbiólogos já tivessem tido culturas de bactérias contaminadas pelo dito fungo, mas todos tinham jogado fora seus discos, sem ver ali a oportunidade para descobrir um antibiótico que salvaria milhões de vidas.

Um exemplo de serendipidade médica mais recente é o Viagra, que foi desenvolvido, inicialmente, para o tratamento de problemas cardíacos. Os pesquisadores só começaram a suspeitar que ele poderia ter um efeito colateral positivo quando os pacientes que tinham tomado parte nos testes clínicos se recusaram a devolver as pílulas não usadas, ainda que a droga parecesse não ter efeito algum sobre seus problemas de coração.

Para enxergar o que muitas vezes está debaixo do nosso nariz, é preciso quebrar paradigmas, pensar fora da caixa, lançar outro olhar. Estudar alternativas e manter a mente aberta para construir pontes onde a maioria enxerga espaços vazios. A serendipidade nada mais é que a sorte dos bem preparados.

Antonio Gavazzoni, advogado e doutor em Direito Público

contatogavazzoni@gmail.com

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